um outro eu...


o título poderá induzir em erro quem vier perder o seu tempo a ler isto. não, não se trata do resultado de nenhuma catarse pré-terceira idade, muito embora eu já não seja pré coisa nenhuma. nada disso, a coisa é bem mais simples, estranha, mas simples e conta-se rapidamente. 
ao fim de muitos anos em angola, decidi inscrever-me no consulado 'tuga' por força de ter que tratar de alguns documentos. 
agendada a visita, lá fui eu, de motorista, pois então, porque arrumar o carro ali na avenida de portugal não é tarefa fácil. 
cheguei antes da hora porque, com todos os defeitos que animadamente reconheço ter, a falta de pontualidade não é um deles. 
a conversa com a funcionária ia animada, formulários para cá, formulários para lá e eis que a senhora me diz:
- "já tem uma inscrição consular feita em toronto."
mau, pensei eu, já estive por lá mas na cidade, nunca no consulado, que nem sei onde fica.
- "qual é o seu nome completo?" - pergunta a senhora olhando para mim a rir, como que colocando à prova a memória de um idoso. 
Felizmente ainda me lembro como me chamo e lá lhe disse o meu nome.
- "em que data nasceu?" - voltou à carga a ditosa funcionária. Comecei a pensar que me tinha enganado na porta e que estava numa qualquer consulta médica. Felizmente a memória está fresca e lá a informei da antiga data que me viu vir ao mundo.
a cara da senhora começou a deixar-me preocupado, até porque chamou uma colega e ambas dividiam o tempo entre o monitor do computador, o meu passaporte e a minha cara.
- "tem consigo o seu cartão de cidadão?" - aqui a coisa começou a preocupar-me, querem ver que eu não sou eu? Contudo, não pude deixar de me divertir com as caras delas já que, agora, os olhares se dividiam entre mim, o monitor, o passaporte, o cartão de cidadão e entre elas.
- "diga-me onde nasceu e qual o nome dos seus pais?" - oh gaita, a coisa estava a adensar-se perigosamente. Já eram perguntas a mais  comecei a pensar que dali só iria sair para uma qualquer cela prisional, com uma qualquer acusação, Lá lhes disse onde nasci e  quem era os meus pais mas, assumo, com o coração nas mãos.  
contudo, foi esse o momento da libertação, da ressureição. ambas sorriram e isso deu-me esperança. a colega foi embora e a funcionária, com longas unhas douradas, esclareceu tudo.
- "é muito curioso, no mesmo dia, mês e ano em que nasceu, também nasceu outro senhor a quem foi dado o mesmo nome que o seu. a diferença está nos nomes dos pais e no local de nascimento, já que ele nasceu nos açores."
caramba, é mesmo muita coincidência mas que ainda assim me deixa preocupado: se o mundo já pequeno um 'eu, imaginem saber que, algures por aí, anda 'um outro eu'...

Comentários

Mensagens populares