tvi: a tchetchena e o miguel ganhão pereira

em alguns comentários aqui deixados tem-se falado numa "tchetchena" e no miguel ganhão pereira. posso falar sobre ambos e sobre outros...
a tchetchena é a minha melhor e mais querida amiga a quem chamo "bolchevique" devido ao facto de ter ido para a antiga união soviética tirar o curso de jornalismo.
curiosamente foi o miguel ganhão pereira e o mário carneiro quem lhe começaram a chamar tchetchena porque a "bolchevique", nos seus acessos de mau génio, gritava que se não a deixassem em paz levavam uma chapada que ficariam com os olhos pregados na tchetchénia, isto porque na redacção do berna tínhamos um mapa gigante que mais tarde em queluz acabaria por ficar mesmo por trás de mim...
falo da melhor repórter da televisão portuguesa, da melhor amiga que alguém pode desejar ter, de uma mulher com um coração do tamanho do mundo sempre disponível para dar, dar e voltar a dar e que se contenta com nada de volta. uma lutadora que nestes anos foi humilhada por gente que não tem sequer capacidade para lhe engraxar os sapatos com que calcorreou o iraque, o afeganistão, a líbia, a síria, o irão, palestina, israel... uma repórter que saltava de um lado para o outro da barricada para escutar os lados em confronto e que não se limitava a ficar nos hoteis confortavelmente instalada limitando-se a fazer vivos com uma duna por trás. correu risco de vida, andava sempre na linha da frente por respeito à profissão, aos seus colegas e à tvi mas cujos "chefes" com a "chefinha" no comando, lhe pagaram com maus tratos e humilhações sem fim.
é assim a "tchetchena" ou a "bolchevique" como lhe chamo ou simplesmente a carmem marques. uma lutadora, uma resistente, uma profissional digna que chegou a ouvir um "chefe" dizer-lhe, aquando do terramoto em marrocos, "vais ficar cá porque para isto é preciso um repórter a sério e não tu". o repórter a sério acho que já nem jornalista é, porque não tinha jeito para a coisa, mas como até é boa pessoa não divulgo aqui o seu nome.
quanto ao miguel ganhão pereira já aqui escrevi e no blog que deu lugar a este também deixei um lamiré em 2005...
a carmen ligou-me de madrugada lavada em lágrimas a dizer que o miguel se tinha suicidado. lembro-me que saí de casa direito a queluz e pelo caminho recordei alguns factos que se tinham passado por esses dias e que o miguel me havia contado: o desprezo com que fora tratado, a mesquinhez com que a ele se dirigiram apenas e só porque passava mais um aniversário sobre o assassinato de sá carneiro e ele, o miguel, era o único jornalista que restava na tvi que fizera parte da equipa de artur albarran que durante meses e meses se dedicara a investigar o atentado.
tinha por isso o miguel muita informação sobre o assunto preparou-se para quando chegasse o dia poder fazer um trabalho sobre isso. como o dia chegou e nada lhe haviam dito abeirou-se que quem decidia e teve como resposta um nojento "quem é que tu pensas que és? achas que te íamos pedir alguma coisa? por amor de deus cresce a aparece, já temos um jornalista a sério que esteve presente no local e tudo quando o avião caiu."
mais palavra menos palavra foi isto que lhe foi dito e o miguel, que já não andava bem, não aguentou e cometeu o acto que todos lamentamos e ainda hoje choramos, ninguém o empurrou e aceito que apesar de grosseiras as palavras ditas ao miguel não eram motivo para ele fazer o que fez, mas foram a gota de água.
quanto ao jornalista a sério, e que nada teve a ver com as palavras dirigidas ao miguel, resta dizer que efectivamente esteve no local da queda do avião, onde gravou um "vivo" junto aos destroços, mas a caminho de outra reportagem, só sabendo quem ia no avião quando regressou à redacção e lhe disseram...
lembro-me que cheguei a queluz pelas 5 ou 6 da manhã e apenas lá estava o segurança, lembro-me que já havia um mail para todos escrito pelo pedro pedroso e que também eu escrevi um, duro, sincero, revoltado... lembro-me que desde esse dia nunca mais olhei nos olhos certa pessoa e que sempre que com ela me cruzava nos corredores me limitava a assobiar para o ar como se estivesse sozinho...
mas houve outros que sofreram nas mãos daquela gente, e digo daquela gente para que não venham agora acusar apenas uma parte porque, tal como na segunda guerra mundial, não foi hitler quem cometeu todos os pecados, por vezes os lacaios para mostrar serviço são algozes bem mais perigosos que os próprios líderes.
procurem saber quantos jornalistas da tvi estiveram de baixa porque não aguentavam mais os maus tratos, quantos tomaram ansiolíticos para os ajudar a aturar o inferno?

Comentários

Adolfo disse…
Em nome da transparência devia chamar os bois pelos nomes porque assim parece o Otávio Machado a dizer "vocês sabem de quem estou a falar..."
TERESA SANTOS disse…
Depois de ler este post fiquei, literalmente, em choque. Não porque me admire pelo tratamento inqualificável que é dado aos funcionários mas, sinceramente, porque nunca pensei que tivesse essas dimensões, que tivessse o poder de ser "a gota de água" que conduz ao suicidio.

Passei por aqui, e Amigo, vou ficar.

Abraço.
Fada do bosque disse…
E vem um anónimo dizer que os meus bosques são na Albânia...
Então isto da TVI é Guantânamo?!
Isto é como diz a Teresa, põe uma pessoa em choque!...
Adelino Santana disse…
José Carlos Castro, sempre me admirei como um jornalista da sua qualidade ali permanecia. Agora fico descansado, não perdeu qualidades...
cp disse…
ó santana, é o soares! j.c. soares!
Adelino Santana disse…
Não sei onde fui buscar essa do castro em vez de soares. Peço desculpa, no entanto não deixa de ser verdade que me espanta ver jornalistas que eu considero, de facto, darem a cara por noticiários que mais parecem da TV local, tipo tiroteios e desavenças de vizinhos.
Anónimo disse…
Suicidou-se um raio!

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